Hoje, pude me despertar de sonhos inquietantes, mas, infelizmente, ao me dar conta, ainda habitava um mero corpo humano. Ao contrário de Gregor Samsa, não passei por uma metamorfose. Do outro lado da porta do meu quarto não havia vozes ou dedos a bater a madeira que separa tal cômodo do restante da casa, tampouco tive que me preocupar com o horário marcado pelos ponteiros do relógio mais próximo à cama, a partida do trem ou o que meu chefe diria. Simplesmente acordei (o que não é empolgante) – e, diferentemente de Gregor Samsa, minha presença em tal dia não faria qualquer diferença caso eu em levantasse ou não da minha cama.
Ontem, 03/07, foi aniversário de Franz Kafka, o primeiro escritor que encontrou o caminho ao meu coração e ali fixou-se para a eternidade.
Apesar de já ter visto seu nome em outros lugares, a primeira vez que minha atenção foi cativada foi em uma noite fria e solitária entre abril e maio de 2015. Meu pai e meu irmão haviam viajado, e, nos dias em que eu não acompanhava minha mãe no local em que ela trabalhava, eu permanecia em casa até certa hora da noite, esperando ela voltar.
Na mesma semana em que li “O Pequeno Príncipe” e “O Nevoeiro”, comecei a ler “Tokyo Ghoul”. Eu realmente não lembro qual o motivo ou contexto, mas foi na última página de algum capítulo finalizado com um pensamento de Kaneki Ken, sobre uma analogia entre as relações humanas e as reações químicas, que decidi que iria ler Kafka pela primeira vez. Tentando olhar para trás, pesquiso e não encontro referências diretas a Kafka em Tokyo Ghoul e tampouco tenho disposição para reler o mangá e reencontrar o motivo, mas foi por causa da obra de Sui Ishida que decidi descobrir a obra de Franz Kafka. Eu sabia que queria ler “A Metamorfose”, mas, sabe-se lá por quê, queria ler a obra física. Queria tê-la em mãos. Então, perguntei se minha mãe poderia comprar para mim, quando ela saísse novamente. No final de semana em que ela chegou ao anoitecer com “A Metamorfose” em mãos, dei início ao que seria uma jornada que continuaria até os dias de hoje. Veja bem: eu não sabia que seria tão especial, mas esperei para iniciar a leitura no dia seguinte, quando minha mãe foi ao trabalho e eu a acompanhei.
Não sei se foi uma boa ideia.
Iniciei a leitura à noite, sentada sozinha, mas perto de muitas pessoas.
Gregor Samsa acordou metamorfoseado.
Sua única preocupação era ir ao trabalho.
Sua família era áspera.
Ainda às primeiras páginas, uma agonia crescia dentro de mim e me corroía os órgãos, contaminando-me tal qual uma célula cancerígena se proliferando. Era para ser apenas uma história absurda, e não algo que me fizesse parar a leitura tantas vezes e olhar para o nada, tentando discernir o que era normal, o que era absurdo e o que era aquilo.
Gregor havia acordado como um inseto, e ninguém realmente se preocupava com esse fato. Gregor mal conseguia se levantar, e ninguém realmente se preocupava com esse fato. Gregor não conseguia falar, e ninguém realmente se preocupava com esse fato. Gregor havia dormido como um humano e acordado monstruosamente como um inseto, e ninguém realmente se preocupava com isso. Gregor agora era um inseto gigantesco, um monstro aos olhos humanos, e ninguém realmente se preocupava com isso, muito menos cogitavam a possibilidade de que, por incrível que pareça, aquele monstro continuava sendo um humano por dentro. Sentia dor, fome, tristeza, alegria; sentia vontade.
Ainda nas primeiras páginas, Gregor se machuca gravemente em uma de suas monstruosas patas por conta da ação de um humano de sua família, e eu realmente tive que parar a leitura por longos minutos nesse momento.
Era pior que terror. Era pior que gore. Era pior que horror. Era pior que litros de sangue, pior do que membros sendo cortados, pior que mortes violentas. Dias antes, eu havia lido “O Nevoeiro”, escrito simplesmente por Stephen King, e a monstruosidade de uma página de “A Metamorfose” havia me atingido mais do que um livro inteiro escrito por uma mente brilhante do terror.
Kafka não escrevia terror.
No dia seguinte, no mesmo lugar, eu terminei a leitura. E, se não me falha a memória, prestei atenção aos detalhes físicos daquela edição que eu segurava, pois precisava me certificar de que nenhuma página havia sido arrancada. E não, nenhuma página havia sido arrancada. Era o fim. Aquilo era, realmente, o fim.
Não é possível descrever o que eu sentia.
Eu só sabia que precisava de mais.
O segundo livro do Kafka que minha mãe comprou para mim foi “O Processo”. Maior e mais denso que “A Metamorfose”, mas tão absurdo quanto: logo no primeiro parágrafo, Josef K. é preso sem saber por quê. Sem saber o motivo, sem saber o que aconteceu, sem saber o que deve fazer. Josef é preso e ninguém nem sequer lhe diz o motivo pelo qual isso aconteceu. E ele então passa a se defender, mas de algo que ele simplesmente não sabe.
Assim como da primeira vez em que tive contato com Kafka, ao terminar “O Processo”, me perguntei se realmente havia finalizado a leitura.
Em seguida, na nova escola em que tive que me matricular, li “Carta ao Pai”, “Aforismos e afins” e alguns compilados de contos de Kafka que eu ia encontrando pela biblioteca. Dos contos, o que mais me marcou foi "Um artista da fome". Minha única certeza era que, apenas de ter “Franz Kafka” impresso em uma capa, eu iria ler. Aliás, lembro que aluguei “Carta ao Pai” juntamente do livro mais aclamado de George Orwell. 1984, uma história tão fatigante e tediosamente chata que terminei de ler apenas pelo sentimento de obrigação e por saber que eu poderia criticar à vontade, pois havia lido. Enfim.
O próximo que eu tinha em mente era o “Diários”, mas, na época, eu não tinha inglês o suficiente para ler um livro nesse idioma. Como de praxe, comecei mesmo assim, sem entender quase nada – da mesma forma que, ainda hoje, faço com as obras originais em sueco e ainda sem tradução do Lindqvist. Mesmo que se não entenda, simplesmente a experiência de ter contato com o idioma original de uma obra é algo que me traz uma sensação muito boa (apesar das obras originais de Kafka, como os diários, não serem em inglês).
Depois, “O Castelo”. Depois, mais contos. Depois, novamente os aforismos. Depois, me via lendo novamente as mesmas coisas; e a sensação era como se fosse sempre a primeira vez.
Em 2020, me aprofundei mais em Albert Camus, e minha empolgação por reconhecer referências a Dostoievski em uma de suas obras só não foi maior do que, ao ler “A Peste”, reconhecer um de seus personagens descrevendo o livro “O Processo”. Aliás, à parte da referência nesse livro, o próprio Camus já teceu um comentário a respeito de “O Processo”, alegando que, com esse livro, somos levados ao limite da consciência humana, e que em tal obra tudo é verdadeiramente essencial.
Mais tarde, descobri que Kafka foi uma grande inspiração para Gabriel García Marquez. Nas palavras do próprio, ao ler o primeiro parágrafo de “A Metamorfose”, quase caiu da cama, pois não sabia que, na literatura, era permitido escrever coisas como aquela; se soubesse, Gabriel teria começado a escrever há muito tempo.
Às vezes, eu me sinto mal por gostar tanto de tudo que Kafka deixou. Antes de morrer, ele deixou claro a um amigo que não queria que seus escritos fossem publicados; seu pedido foi para que todas suas obras, inacabadas ou não, fossem queimadas, reduzidas a cinzas e, logo, a mais nada. Como se nunca houvesse existido. Como se nunca houvesse feito diferença. Como se nunca houvesse saído de sua mente, tomado a forma de palavras e, então, histórias. Eu gostaria de pedir desculpas a Franz Kafka, pois o sentimento de que estou invadido sua intimidade segue dentro de mim assim como a admiração e o mais genuíno sentimento de conforto.
Quando penso em Kafka, sinto-me bem-vinda a algum lugar incerto dentro da minha própria mente. Uma espécie de zona de conforto, um lugar onde as palavras vagam, se misturam, dão origem e forma a outras e estão sempre a tecer novos absurdos incrivelmente humanos.
Há algo mais absurdo que a própria natureza humana?
Às vezes, ao pensar na vida que Kafka teve, tento fugir dos meus pensamentos. Queria que ele tivesse sido mais feliz. Queria que ele tivesse vivido mais. Queria... Que ele simplesmente vivenciasse mais do melhor. O mesmo aplico a Oscar Wilde e Nikolai Gogol, e é doloroso o sentimento de desejar tanto a felicidade de pessoas que nunca conheci e morreram há tanto tempo.
Dentre tantas idas e vindas, durante os anos da minha vida fui perdendo a maioria dos livros que já tive. Por alguma sorte, “A Metamorfose” e “O Processo” são dois que seguem comigo desde 2015.
Parabéns por seu aniversário, Franz; no dia 03/07, nasceu a pessoa que, sem saber, construiria a essência e o interior de tantos e tantos, e eu sou apenas mais uma dessas pessoas que, dia após outro, enxerga acordar metamorfoseado como um inseto gigantesco a melhor coisa que me poderia acontecer.
Há algo mais kafkaesque que a própria natureza humana?

