terça-feira, 9 de junho de 2026

Exibição vulgar de poder




Três vezes na vida, abri o livro "O Exorcista". A primeira vez foi há mais de 10 anos, quando peguei o livro físico emprestado da biblioteca da escola num daqueles intervalos prolongados por aulas canceladas, mas não passei da primeira página porque não estava no clima para entender o que diabos uma escavação sob o sol ardente do Iraque tinha a ver com padres, demônios e exorcismos. A memória é nitída: mais um dia iluminado por aquela bola escaldante que chamam vulgarmente de Sol, mas que, em Fortaleza, dava a sensação de estar sempre perto demais. Era meu primeiro ano numa escola estadual, e o acervo ali era mais interessante do que todas minhas recordações na escola privada de antes. Aliás, foi o primeiro lugar onde vi uma cópia física de um mangá de Saint Seiya, um volume bem conservado de "Episode.G", isto é, o mangá mais aleatório que se poderia esperar encontrar. Também, foi o lugar onde li Nietzsche pela primeira vez, por meio de uma cópia mais maltratada de "Assim falou Zaratustra", e lembro de não ter entendido merda nenhuma.

A segunda vez que abri "O Exorcista" foi em 2024, em formato digital, e, dessa vez, passei da primeira página — na verdade, cheguei à última mais rápido do que imaginava. Instantaneamente, tornou-se um dos meus livros favoritos. Ainda na primeira e segunda leitura, a motivação foi a mesma: sempre gostei muito de terror, mas nunca gostei de jumpscare e cenas visuais grotescas com demasiado sangue. Sustos sonoros e gore não me dão medo de verdade, apenas a sensação desagradável do coração acelerado e repulsa; o que, para mim, é bem pior.

"O Exorcista" não é um terror visual, apesar de ser extremamente fácil visualizar o quão horrível é a Regan possuída pelo demônio. O medo no romance de William Peter Blatty é construído gradativamente, capítulo por capítulo, como um arrepio sem pressa subindo pela espinha. Não é algo repentino; na minha opinião, é algo que vai ganhando espaço na sua cabeça de forma a exigir tanto da sua concentração que, lendo em silêncio, um ruído repentino faz você acordar do transe como quem acorda de um pesadelo. 


A terceira vez que li o livro foi entre os dias 18 e 21 de abril de 2026. Em uma palavra: deleite. Pensei em falar "infelizmente, curto demais" e me corrigi, pois discordo da ideia de um livro ser "curto demais" ou "grande demais". Um escritor sabe quando e onde parar, e desrespeitar essa natureza é forçar algo que, ao fim, acaba por se tornar uma experiência amarga. Tive a impressão de que “O Exorcista” não tinha mais que 180 páginas (leio em formato digital e oculto o progresso de leitura, não gosto de saber a numeração de onde estou), mas... Dei uma olhada, e as duas versões mais lidas são uma de 350 e outra de 400 páginas. 


Eu simplesmente adoro revisitar obras que já conheço. Li (inteiramente) “O Exorcista duas vezes”, e ambas foram completamente diferentes entre si. Na segunda vez, notei coisas que antes passavam despercebidas, interpretei falas e acontecimentos agora de outro ponto de vista, e é fantástico ver aquilo que “não poderia ficar melhor” se superando. 


Não acho muito lógico um aviso de spoiler referente a um livro e filme publicados na década de 70, mas... Enfim.


Chris MacNeil é uma atriz famosa e bem-sucedida, prestes a ter sua primeira oportunidade como diretora de um filme. Regan MacNeil, de 12 anos, é a amável e doce filha, fruto de um casamento que já não existe; parcialmente, devido à carreira de Chris e as consequentes limitações impostas por uma vida pública. Ambas vivem com os criados Karl e Willie, um casal de suíços. Coisas estranhas começam a surgir em casa e, posteriormente, no comportamento de Regan. Depois de inúmeras experiências com médicos, exames, medicações, hospitais e todas as tentativas científicas de explicar o estado anormal de Regan, Chris recorre ao conhecido padre que tem a vida dividida entre a igreja e a universidade. 


Membro do clero e médico psiquiatra, apesar de não propriamente exercer a segunda ocupação e estar abalado na primeira, Damien é um padre de fé fragilizada, cujo recente falecimento da mãe explica muito seu atual estado emocional.  Até mesmo para a força anormal oriunda de uma menina de 12 anos e a telecinese (gavetas abrindo-se e fechando-se bem a frente dos olhos de Damien), Karras encontra uma explicação científica, baseada no aprendizado acumulado através de anos de estudo e profissionalismo. Não é que ele não queira acreditar —  é quase como se fosse incapaz de acreditar.


O demônio, desde o princípio, sabe da fraqueza de Karras. É ainda no primeiro encontro entre os dois que surge a famosa frase "vulgar display of power", que se popularizou para além da adaptação cinematográfica por ter nomeado o sexto álbum de uma banda que, hoje em dia, prefiro fingir que nunca existiu. 


Regan: I am the devil  

Karras: if you are the devil, why won't you make the straps disappear?  

Regan: that's too much of a vulgar display of power, Karras


Se Pazuzu fizesse as amarras se soltarem, seria como restaurar a fé de Damien diante de seus olhos. O demônio tem seu orgulho, e, como o padre Merrin chegou a dizer, o objetivo dele é causar desespero e nos incitar a dúvida quanto à nossa própria humanidade. Pazuzu move gavetas e móveis indiscriminadamente, mas não remove as cordas que imobilizam o corpo de Regan à cama. Por que mover os móveis, mas não as cordas?


Pazuzu consegue extrair pensamentos recentes e conhecimento da mente de Karras; quando este começa a fazer perguntas em latim e o demônio responde no mesmo idioma, explicando que só sabe responder àquelas específicas questões porque conseguia repetir em voz alta as respostas que lia no consciente de Karras. Em outro momento, Karras traz consigo um recipiente de água benta preenchido com água da torneira e respinga gotas diretamente sobre o corpo de Regan, e o demônio reage como se estivesse genuinamente sendo ferido por água sagrada. Por que ler os pensamentos de Karras em um contexto, mas, noutro, fingir não saber que o padre estava o testando?



Porque, como médico psiquiatra e padre, Damien era a pessoa perfeita para distinguir se o caso de Regan era um transtorno mental não diagnosticado ou uma possessão. Pazuzu viu o objetivo de Karras e decidiu brincar com o padre, vê-lo desolado, sem saber no que acreditar, perdido entre fatos que sustentam a possibilidade científica e os fatos que sustentam a possibilidade sobrenatural. Damien proporcionou ao demônio tudo que este necessitava: oportunidades para atuar. Karras, como psiquiatra, sentia que era capaz de manter os diálogos de maneira a extrair informações importantes para o caso de Regan, e não percebeu que estava sendo completamente manipulado por Pazuzu.  


Momentos antes do início do exorcismo, antes de irem juntos ao quarto onde Regan se encontra, o padre Lankester Merrin dá um adendo importante: 


Especially important is the warning to avoid conversations with the demon. We may ask what is relevant but anything beyond that is dangerous. He is a liar. The demon is a liar. He will lie to confuse us. But he will also mix lies with the truth to attack us. The attack is psychological, Damien, and powerful. So don’t listen to him.


Na medicina no contexto do livro, uma das possíveis explicações científicas para o estado de Regan era a multi-personalidade, que, na realidade, é explicada pelo Transtorno Dissociativo de Identidade (TID). Sabendo disso, Pazuzu usa diferentes vozes, idiomas e características, o que é um fator favorável para a hipótese patológica. Após profundas análises, Karras chega à conclusão de que Regan (ou aquilo que, no momento, é Regan) expressa 3 personalidades, o que reforça a explicação científica e descarta uma possessão demoníaca, visto que o demônio deveria ser um único indivíduo. 


E ele continua acreditando piamente nisso, até ao ponto de tentar explicar o "background" de toda a situação para o padre Merrin momentos antes do exorcismo, e ser totalmente surpreendido com a simples e firme resposta do mais experiente: "é apenas uma personalidade". Por mais numerosas que fossem as dúvidas ainda existentes no consciente de Karras, a explicação era simples: "He will lie to confuse us. But he will also mix lies with the truth to attack us".


 

Eu diria que Damien apenas acreditou que Regan estava mesmo possuída por um demônio no último capítulo do livro, já com a presença de Merrin e o exorcismo em execução. Até a chegada de Merrin, Karras seguia com a ideia de que o exorcismo seria um placebo, a única via terapêutica de trazer paz à Regan e, consequentemente, à desolada mãe Chris. O tempo todo, Damien levava em consideração o fato de que grande parte dos exorcismos no passado eram casos de pessoas doentes que desenvolveram a ideia de que, de fato, estavam possuídas pelo demônio, e o exorcismo funcionava como um placebo milagroso.


Enfim. Agora, um pouco sobre o padre Lankester Merrin… Um personagem que não vemos muito; apenas o suficiente. Lankester nos é introduzido apenas em dois momentos: no início, onde Merrin entende que o demônio Pazuzu iria retornar, e no fim do romance, onde Merrin já se encontra a par de seu destino. Nas primeiras páginas, acompanhamos-o no Iraque, e, nas últimas, em Georgetown. E um fato interessante: ele e o demônio já se conhecem de águas passadas. No momento em que Lankester entra na casa dos MacNeil, Pazuzu, do andar de cima, começa a gritar: 

MERRRRRIIIIN

E eu confesso, esse momento me fez engolir em seco. Ninguém havia mencionado o exorcismo ou o nome de Merrin ao demônio. A criatura simplesmente sentiu a presença, já por si conhecida, de Lankester, e entendeu o que poderia estar prestes a se desenrolar.


     

Apesar de tudo, eventualmente, tive as bolas para assistir o filme de 1973. Afinal... Como não? A atuação da Linda Blair e do Jason Miller são irresistíveis, assim como a trilha sonora cativante que marcou "Tubular bells", da autoria de Mike Oldfield, como um clássico do terror. A adaptação cinematográfica é realmente fiel ao livro, mas é óbvio que eu prefiro o segundo. Por N motivos, mas posso rapidamente citar duas diferenças (coincidência ou não, ambas pertencentes ao capítulo final) que, a meu ver, por si só, demonstram a superioridade do livro: 


1. No filme, Karras usa da abrupta violência física para fazer o demônio deixar o corpo de Regan e possui-lo. Para mim, isso não faz sentido. Conhecendo o demônio até aqui, acredito que ele teria se deleitado ao ver Damien batendo em Regan, por ser um ato irracional e típico de perder as estribeiras, destacando a vulnerabilidade humana perante ao desespero. Entendo que o diretor tenha escolhido essa alteração por ser algo mais visual e rápido, era necessário terminar o filme nos limites determinados.


No livro, a abrupta violência não é física, mas psicológica: Karras sabe que o demônio é vaidoso e ambicioso, e começa a atacar não com golpes físicos, mas com palavras, e não o corpo de Regan, mas o orgulho de Pazuzu. Um momento demasiadamente curto, mas incrivelmente satisfatório. Damien sabe exatamente onde dói, e, entre depreciações, começa a provocar o demônio, insinuando que este possuía crianças indefesas pois não tinha capacidade de possuir alguém maior, alguém mais resistente, alguém mais forte... Alguém como um padre.


Neste ponto, lembro-me de um dos porquês de Karras ser um dos meus "personagens fictícios preferidos que conto nos dedos".


2. Ao perceber que Pazuzu abandonou o corpo de Regan e começou a possui-lo, Damien se autossacrifica, jogando-se pela janela. No filme, Karras morre com o rosto rente ao chão. No livro, todavia, ele morre de costas para o chão, isto é, olhando para cima. No momento em que o padre Dyer pede a confissão de Damien, é descrita uma expressão de vitória e (por não dizer?) paz no rosto de Karras. O autossacrifício não havia sido à toa: o demônio havia feito exatamente o que Karras queria, e Regan estava livre.



Menções honrosas

Ao livro: Apesar de ser explícito que o demônio brinca com a linguagem, há um trecho específico cujo significado só percebi quando tive contato com a obra pela segunda vez. A princípio, pensei que ele só queria tirar uma com os coitados que, antes de Karras, tentaram conversar consigo e entender a situação de Regan.



Dog = god
Dogmorfmocion: no i come from god

Ao filme: um detalhe que só uma adaptação cinematográfica poderia trazer. Em uma cena, Regan tem o braço direito erguido da mesma maneira que a estátua de Pazuzu. Lembro-me também de um comentário que li algures sobre a escultura em formato de pássaro, feita pela Regan antes da possessão, assemelhar-se à figura de Pazuzu; um fato interessante, mas que, ehhh, para mim, não convincente o suficiente.


 

Eu não sei me despedir. Não sei como terminar o que parece ser mas não é uma resenha, pois não tem o profissionalismo característico de uma. Resenha? Ensaio? Opinião?


Uma das frases mais célebres da autoria de George A. Romero diz que, quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a Terra. No caso, quando a minha cabeça começa a transbordar de pensamentos, especialmente aqueles que dão voltas e voltas, as palavras começam a andar sobre o papel — e, geralmente, terminam sobre o teclado.




sexta-feira, 10 de abril de 2026

Love, Metal, and Losing Yourself

 


"Be yourself, everyone else is already taken" was once (we assume) said by Oscar Wilde. However, Wilde died in 1900, while the quote started being associated with Oscar's persona in what we believe were decades after his death.

Oscar wrote some books, plays, poetry and "something else", besides the famous The Picture of Dorian Gray; even an essay called The Soul of Man Under Socialism, for what it's worth. I'm just trying to say he wrote a lot, which means that, if he himself had ever said the quote at the beginning of this post, there would be a record. Therefore, there is none. He probably never said that, but it indeed fits his persona, and that's why we do not question it much.

Most people in the USA had their first contact with Ville’s creation, HIM, through Bam Margera, a notorious skateboarder, filmmaker, etc. He had a reality show, which is low-key the standard of a successful American celebrity. I have known HIM for most of my life and only read somewhere (I'm not willing to say it was on Reddit) about Bam Margera last week. Just an out of context sentence and I got really curious to know more.

Once upon a time… Bam discovered HIM in the late 90s and, through his CKY videos, quickly became a fan. Ville turned into his idol. But, well, Bam was already very known, and everything is easier when you are famous. Bam not only became a HIM, and specifically a Valo fan, bringing more fame to the band in the USA by promoting their music and image in his own reality show; he also became a friend of Ville, including Ville in Viva La Bam and even reached the point of directing music videos for the band. So far, so good.

Until you discover that Bam got similar tattoos to Ville. Hear me out, I'm not talking about a generic tattoo you see everywhere 一 Ville has the heartagram tattooed on his body, the symbol he himself created for the band and concept he also created. The iconic heartagram I carry around my neck everywhere I go.

It’s not weird to have tattoos in honour of the artists you like; but if they are exactly the same drawings and in the exact same body parts as they are in the artist you like, we are not speaking about a homage.

  

When I look at Bam, I see a guy that fits in the visual scene that goes from Mark Hoppus to Chino Moreno. That’s the personality and visual identity he built over the years of his existence, something natural and with his original essence. Ville, thus, isn’t like that. Valo has always been on the dark side and, with the influences he had while growing up, he created his own fucking niche: love metal. Love, metal and death. Oh, to die of love with some cool riffs in the background. Two totally different people, each one unique in their own ways.

By osmosis, or anything we would like to say, the more Bam knew and appreciated Ville, the more Bam forgot himself. “Remember who you are”, Mufasa said to Simba when he needed it most. Too bad Margera didn’t have someone at that time to remember who he was, and how proud he should have been for it. The closer he became to Ville, the more he wanted to be Ville.

Comparison is the thief of joy.

But there’s something you cannot copy from someone, no matter your efforts: their genome. I learned from the slides of a teacher, that the concept of genome can be described as the set of all biological information necessary to build and maintain a living being. Each person is a different individual.

In Gattaca, Vincent wants to be Jerome; in real life, Bam wanted to be Ville. But, in the dystopic movie by Andrew Niccol, the character of Ethan Hawke is literally genetically inferior — such a thing doesn’t exist in the real world!

Ville must have been smoking since he was in the womb. He has always preferred to drink than eat and, if I'm not wrong, he has already mentioned his appetite is not that great. Without effort, just living normally, Ville is skinny.

And Bam wanted to be like Ville in all aspects. To reach and keep the same body shape as Valo, Margera started to avoid food and, instead, to drink to suppress his hunger. When Bam ate, he was then going to the bathroom to purge, and that wasn't even a secret for his friends.

The eating disorder wasn’t the prologue of the fall; I see it as the final push. Every eating disorder leads to the path of self-destruction. You will never be happy, no matter how far you have come. You may reach your dream body, then discover it’s a hell to maintain.

The body you reach through an eating disorder will never be your natural body. And if you are reading this and by any chance you are struggling with an eating disorder, I hope you can accept yourself, because life is really too short to be spent fighting who you are. Seek help, you are not alone. The path is never linear and you do not need to bear it alone.

Bam did what people with ED are used to doing. Day by day, bearing life in survival mode. Eventually, and of course, he crashed, just like everyone who deals with an ED. The consequences of his acts were showing up and we, outsiders, only know the surface of it. He was hospitalized due to his alcohol problems and so… and everything else.

He discovered HIM in the late 1990s, that’s what I would call the starting point. We are in 2026, and it is clear that Bam is still struggling in life.

Meanwhile, Ville is just still there. He had his low moments, just like everybody else, but just because life is life, and not because he stopped his life to try to be something he wasn’t. Ville Valo is still Ville Valo, while, nowadays, Bam Margera is still picking up his own pieces. I don’t follow the life of other people, and if I were into that, I'm not the one to say how Bam is now. I just hope he's able to find peace within himself.

You do not need to look like anyone. If there’s something about your appearance or personality that you tried to change and the process of doing so harmed you, it was never meant to be changed.

It’s not easy to find yourself, to discover who you are. But for what it's worth, rejecting the labels will make the process smoother. You do not need to fit in nor be loyal to any niche. Do not suppress yourself for fear of judgment; people will judge anyway. I fully doubt Oscar ever said the sentence mentioned in my text, but sure he was Wilde enough to think like that.

There won’t be a next him.



segunda-feira, 4 de julho de 2022

139 anos de Franz Kafka

 


Hoje, pude me despertar de sonhos inquietantes, mas, infelizmente, ao me dar conta, ainda habitava um mero corpo humano. Ao contrário de Gregor Samsa, não passei por uma metamorfose. Do outro lado da porta do meu quarto não havia vozes ou dedos a bater a madeira que separa tal cômodo do restante da casa, tampouco tive que me preocupar com o horário marcado pelos ponteiros do relógio mais próximo à cama, a partida do trem ou o que meu chefe diria. Simplesmente acordei (o que não é empolgante) – e, diferentemente de Gregor Samsa, minha presença em tal dia não faria qualquer diferença caso eu em levantasse ou não da minha cama. 

Ontem, 03/07, foi aniversário de Franz Kafka, o primeiro escritor que encontrou o caminho ao meu coração e ali fixou-se para a eternidade. 

Apesar de já ter visto seu nome em outros lugares, a primeira vez que minha atenção foi cativada foi em uma noite fria e solitária entre abril e maio de 2015. Meu pai e meu irmão haviam viajado, e, nos dias em que eu não acompanhava minha mãe no local em que ela trabalhava, eu permanecia em casa até certa hora da noite, esperando ela voltar. 

Na mesma semana em que li “O Pequeno Príncipe” e “O Nevoeiro”, comecei a ler “Tokyo Ghoul”. Eu realmente não lembro qual o motivo ou contexto, mas foi na última página de algum capítulo finalizado com um pensamento de Kaneki Ken, sobre uma analogia entre as relações humanas e as reações químicas, que decidi que iria ler Kafka pela primeira vez. Tentando olhar para trás, pesquiso e não encontro referências diretas a Kafka em Tokyo Ghoul e tampouco tenho disposição para reler o mangá e reencontrar o motivo, mas foi por causa da obra de Sui Ishida que decidi descobrir a obra de Franz Kafka. Eu sabia que queria ler “A Metamorfose”, mas, sabe-se lá por quê, queria ler a obra física. Queria tê-la em mãos. Então, perguntei se minha mãe poderia comprar para mim, quando ela saísse novamente. No final de semana em que ela chegou ao anoitecer com “A Metamorfose” em mãos, dei início ao que seria uma jornada que continuaria até os dias de hoje. Veja bem: eu não sabia que seria tão especial, mas esperei para iniciar a leitura no dia seguinte, quando minha mãe foi ao trabalho e eu a acompanhei. 

Não sei se foi uma boa ideia. 

Iniciei a leitura à noite, sentada sozinha, mas perto de muitas pessoas. 

Gregor Samsa acordou metamorfoseado.

Sua única preocupação era ir ao trabalho. 

Sua família era áspera. 

Ainda às primeiras páginas, uma agonia crescia dentro de mim e me corroía os órgãos, contaminando-me tal qual uma célula cancerígena se proliferando. Era para ser apenas uma história absurda, e não algo que me fizesse parar a leitura tantas vezes e olhar para o nada, tentando discernir o que era normal, o que era absurdo e o que era aquilo.

Gregor havia acordado como um inseto, e ninguém realmente se preocupava com esse fato. Gregor mal conseguia se levantar, e ninguém realmente se preocupava com esse fato. Gregor não conseguia falar, e ninguém realmente se preocupava com esse fato. Gregor havia dormido como um humano e acordado monstruosamente como um inseto, e ninguém realmente se preocupava com isso. Gregor agora era um inseto gigantesco, um monstro aos olhos humanos, e ninguém realmente se preocupava com isso, muito menos cogitavam a possibilidade de que, por incrível que pareça, aquele monstro continuava sendo um humano por dentro. Sentia dor, fome, tristeza, alegria; sentia vontade. 

Ainda nas primeiras páginas, Gregor se machuca gravemente em uma de suas monstruosas patas por conta da ação de um humano de sua família, e eu realmente tive que parar a leitura por longos minutos nesse momento. 

Era pior que terror. Era pior que gore. Era pior que horror. Era pior que litros de sangue, pior do que membros sendo cortados, pior que mortes violentas. Dias antes, eu havia lido “O Nevoeiro”, escrito simplesmente por Stephen King, e a monstruosidade de uma página de “A Metamorfose” havia me atingido mais do que um livro inteiro escrito por uma mente brilhante do terror. 

Kafka não escrevia terror. 

No dia seguinte, no mesmo lugar, eu terminei a leitura. E, se não me falha a memória, prestei atenção aos detalhes físicos daquela edição que eu segurava, pois precisava me certificar de que nenhuma página havia sido arrancada. E não, nenhuma página havia sido arrancada. Era o fim. Aquilo era, realmente, o fim. 

Não é possível descrever o que eu sentia. 

Eu só sabia que precisava de mais.

O segundo livro do Kafka que minha mãe comprou para mim foi “O Processo”. Maior e mais denso que “A Metamorfose”, mas tão absurdo quanto: logo no primeiro parágrafo, Josef K. é preso sem saber por quê. Sem saber o motivo, sem saber o que aconteceu, sem saber o que deve fazer. Josef é preso e ninguém nem sequer lhe diz o motivo pelo qual isso aconteceu. E ele então passa a se defender, mas de algo que ele simplesmente não sabe. 

Assim como da primeira vez em que tive contato com Kafka, ao terminar “O Processo”, me perguntei se realmente havia finalizado a leitura. 

Em seguida, na nova escola em que tive que me matricular, li “Carta ao Pai”, “Aforismos e afins” e alguns compilados de contos de Kafka que eu ia encontrando pela biblioteca. Dos contos, o que mais me marcou foi "Um artista da fome". Minha única certeza era que, apenas de ter “Franz Kafka” impresso em uma capa, eu iria ler. Aliás, lembro que aluguei “Carta ao Pai” juntamente do livro mais aclamado de George Orwell. 1984, uma história tão fatigante e tediosamente chata que terminei de ler apenas pelo sentimento de obrigação e por saber que eu poderia criticar à vontade, pois havia lido. Enfim. 

O próximo que eu tinha em mente era o “Diários”, mas, na época, eu não tinha inglês o suficiente para ler um livro nesse idioma. Como de praxe, comecei mesmo assim, sem entender quase nada – da mesma forma que, ainda hoje, faço com as obras originais em sueco e ainda sem tradução do Lindqvist. Mesmo que se não entenda, simplesmente a experiência de ter contato com o idioma original de uma obra é algo que me traz uma sensação muito boa (apesar das obras originais de Kafka, como os diários, não serem em inglês). 

Depois, “O Castelo”. Depois, mais contos. Depois, novamente os aforismos. Depois, me via lendo novamente as mesmas coisas; e a sensação era como se fosse sempre a primeira vez. 

Em 2020, me aprofundei mais em Albert Camus, e minha empolgação por reconhecer referências a Dostoievski em uma de suas obras só não foi maior do que, ao ler “A Peste”, reconhecer um de seus personagens descrevendo o livro “O Processo”. Aliás, à parte da referência nesse livro, o próprio Camus já teceu um comentário a respeito de “O Processo”, alegando que, com esse livro, somos levados ao limite da consciência humana, e que em tal obra tudo é verdadeiramente essencial. 

Mais tarde, descobri que Kafka foi uma grande inspiração para Gabriel García Marquez. Nas palavras do próprio, ao ler o primeiro parágrafo de “A Metamorfose”, quase caiu da cama, pois não sabia que, na literatura, era permitido escrever coisas como aquela; se soubesse, Gabriel teria começado a escrever há muito tempo. 

Às vezes, eu me sinto mal por gostar tanto de tudo que Kafka deixou. Antes de morrer, ele deixou claro a um amigo que não queria que seus escritos fossem publicados; seu pedido foi para que todas suas obras, inacabadas ou não, fossem queimadas, reduzidas a cinzas e, logo, a mais nada. Como se nunca houvesse existido. Como se nunca houvesse feito diferença. Como se nunca houvesse saído de sua mente, tomado a forma de palavras e, então, histórias. Eu gostaria de pedir desculpas a Franz Kafka, pois o sentimento de que estou invadido sua intimidade segue dentro de mim assim como a admiração e o mais genuíno sentimento de conforto.

Quando penso em Kafka, sinto-me bem-vinda a algum lugar incerto dentro da minha própria mente. Uma espécie de zona de conforto, um lugar onde as palavras vagam, se misturam, dão origem e forma a outras e estão sempre a tecer novos absurdos incrivelmente humanos. 

Há algo mais absurdo que a própria natureza humana?

Às vezes, ao pensar na vida que Kafka teve, tento fugir dos meus pensamentos. Queria que ele tivesse sido mais feliz. Queria que ele tivesse vivido mais. Queria... Que ele simplesmente vivenciasse mais do melhor. O mesmo aplico a Oscar Wilde e Nikolai Gogol, e é doloroso o sentimento de desejar tanto a felicidade de pessoas que nunca conheci e morreram há tanto tempo. 

Dentre tantas idas e vindas, durante os anos da minha vida fui perdendo a maioria dos livros que já tive. Por alguma sorte, “A Metamorfose” e “O Processo” são dois que seguem comigo desde 2015. 

Parabéns por seu aniversário, Franz; no dia 03/07, nasceu a pessoa que, sem saber, construiria a essência e o interior de tantos e tantos, e eu sou apenas mais uma dessas pessoas que, dia após outro, enxerga acordar metamorfoseado como um inseto gigantesco a melhor coisa que me poderia acontecer. 

Há algo mais kafkaesque que a própria natureza humana?




quarta-feira, 25 de maio de 2022

At Death's Door (1999) — (uma quase) maratona Cillian Murphy

 

At Death's Door (1999)
Escrito e dirigido por Connor Morrissey

Como de praxe: isto não é uma resenha — nem pense em procurar por estrutura semelhante. É apenas um post provavelmente pequeno e direto em que expressarei minha opinião sobre o curta-metragem At Death's Door, apenas mais um de 2022 da minha "maratona Cillian Murphy".

Ando a ter problemas com o Torrent. Sempre foi fácil, mas agora me aparecem avisos relacionados a essas tais tecnologias envolvendo VPN e não sei das quantas, vou deixando para depois e desisto. Então, bem, dessa vez não foi Disco Pigs, mas um curta-metragem disponível no YouTube. Pela thumbnail e pelo nome, imaginei algo provavelmente tão silencioso e excêntrico como The Water, mas, vejamos, não foi exatamente assim.

Usando palavras-chave aleatórias capazes de  a meu ver — transmitir parcialmente os elementos que compõem a atmosfera como um todo, o que inclui o enredo, eu poderia mencionar: The Addams Family e Edgar Allan Poe.

A grande estreia de Cillian Murphy no cinema foi em Disco Pigs, cujo lançamento é datado de 2001; At Death’s Door, por sua vez, tem seu lançamento datado de 1999. Em outras vezes, foi um dos primeiros papéis de um jovem Cillian. Trata-se de um curta-metragem irlandês de aproximadamente 14 minutos, com uma leve aura um tanto goticômica.

Em At Death’s Door, Cillian interpreta um aprendiz de ceifador  afinal, ele é o filho da Morte. Seu pai (interpretado por Des Keogh) é um excelente trabalhador, e tão logo no início do curta-metragem somos introduzidos a mais um dia normal de trabalho em que o filho acompanha seu pai no trabalho e ambos nos mostram um ótimo desempenho juntos. Veja bem: juntos. Após a afetuosa cena da dupla fraternal, o filho do ceifador tem o seu primeiro dia de trabalho sozinho. O pai está velho, e o rapaz está sendo preparado para, tão logo, assumir os negócios da família.


Ah, observação: uma ressalva a ser feita se dá pelo fato de que o papel da Morte não se dá em matar arbitrariamente, mas, sim, com apenas um toque no ombro do quase moribundo, decretar o último suspiro daquele que já está à porta da morte. Literalmente,
at death's door.

E era apenas isso que o filho do ceifador tinha que fazer  ir ao local onde se encontra a vítima e, mais pomposamente falando, cortar o fio que a liga ao mundo dos vivos. Acontece que o filho da Morte é um jovem rapaz doce demais para isso. Quando esteve ao lado do pai, conseguiu executar o trabalho sem pestanejos; mas, ao estar sozinho, não teve coragem de decretar o último suspiro da pessoa que já se encontrava à porta da morte. Em outras palavras: salvou a vida que deveria ceifar.

Em teoria e em prática, os seres humanos, meros mortais, não são capazes de enxergar os ceifadores; mas, para o azar do jovem aprendiz, inexplicavelmente um rapaz chamado Tom (interpretado por Keith McErlean) foi capaz de lhe ver, sendo o responsável por convencer o filho da Morte a deixar aquela pessoa viva. E como é de se esperar, ao chegar em casa, o filho ouve poucas e boas do pai. O ceifador patriarca não poupa palavras e repreensões ao filho, ao que a mãe escuta em silêncio o conflito familiar. O jovem decepcionou a família, quebrando todas as expectativas que os pais tinham em si, e estes estão claramente desapontados; e o patriarca, especialmente, irritado. Então, o pai decreta: no dia seguinte, ou o filho mata alguém ou simplesmente não volta para casa.

Simples, não? A não ser que você seja afável demais para ser o filho da Morte.



Mas, se o jovem foi ou não capaz de orgulhar a família, isto não direi  escrever algo sem dar spoiler é quase como transcender, wow.

Em At Death’s Door, Cillian não tem falas, seu personagem é embalado pelo silêncio e pela sua expressão corporal, e bastou isso para entregar um personagem realmente expressivo, cujos sentimentos estão claros ao telespectador. As expressões faciais do filho da Morte superam qualquer lista de falas que ele poderia ter. Como dito anteriormente, a grande estreia de Cillian no cinema foi em 2001, então, bem, podemos dizer que, neste curta-metragem de 1999, estávamos conhecendo um jovem irlandês relativamente desconhecido, mas com um talento que certamente não foi desperdiçado.

Como dito anteriormente, o curta está disponível no YouTube. Não há legendas em português (porém, há em inglês), mas, como mencionado, o personagem de Cillian não tem falas; mas o pai e o rapaz que podia lhe ver, sim, e, bem, eles falam demais. Como é de esperar, recomendo. É rápido, leve, engraçado e vale a pena, é gostoso de se assistir. 

Quem sabe eu tenha sorte com a internet e consiga assistir Disco Pigs... Algum dia, pelo menos. No mais, agradeço muitíssimo a você que leu até aqui. Hidrate-se e fique bem. Até!

Observação pt.2: feliz aniversário, Cillian! 


quarta-feira, 11 de maio de 2022

Red Eye (2005) — (uma quase) maratona Cillian Murphy

 

Red Eye (2005)
Escrito por Carl Ellsworth e dirigido por Wes Craven

Como de praxe: isto não é uma resenha — nem pense em procurar por estrutura semelhante. É apenas um post provavelmente pequeno e direto em que expressarei minha opinião sobre o filme Red Eye, o segundo de 2022 da minha “maratona Cillian Murphy”.

No post sobre Red Lights, expliquei brevemente que, ao começar a assistir o filme, estava à espera do "cair das máscaras" quanto ao personagem Tom Buckley. Algo que não aconteceu, já que eu havia confundido Red Lights com Red Eye e até o final me esqueci completamente disso, descobrindo depois, ao confirmar os nomes das obras nas quais houve participação do Cillian. Pois bem. Cá estamos. 

Gostaria de fazer logo inicialmente uma menção honrosa ao trailer, pois, sinceramente, é um dos melhores trailers que já foram feitos na história do cinema. De 5 estrelas, dou 6. Vale a pena dar uma conferida através do YouTube.

Cillian interpreta Jackson Rippner, um carismático, relativamente misterioso e — propositalmente — charmoso passageiro de um aleatório voo noturno com destino a Miami. Quanto à sua apresentação, não há muito o que falar... Seu trabalho é algo constante na sua vida, o que lhe faz atender algumas chamadas telefônicas frequentemente; aparenta possuir um senso de justiça e não é muito fã de apelidos, visto que o primeiro que vem à cabeça das pessoas é Jack, e seu sobrenome, como já mencionado, é Rippner. Jack Rippner. Para ele, e também para as pessoas quando pronunciam e após alguns instantes se dão conta, soa muito como Jack the Ripper. Quando a adorável Lisa Reisert, interpretada por Rachel McAdams, deu-se conta disso, o máximo que lhe veio à cabeça foi uma risada sincera e desconcertante, afinal, bua, a mocinha já estava bobinha pelo tão charmoso e polidamente educado e gentil Jackson. 

Ah, Lisa Reisert, claro; falemos sobre esta importante figura. Logo no início do filme, somos introduzidos a esta moça, uma gerente de hotel abarrotada de trabalho, ainda mais por estar pegando um voo planejado de última hora. Lisa não tinha em mente deixar a gerência do hotel com sua colega de trabalho (uma jovem que não consegue dar um passo sem telefonar para Lisa, solicitando orientações desta), mas o falecimento de sua avó não lhe deixou opções; estava no Texas e, agora, precisava retornar a Miami, "obrigando-a" a ter de embarcar no voo noturno ao seu destino de volta para casa. Lisa detesta aviões, possui um medo praticamente palpável quando se trata de viajar nas alturas; nem sequer imaginava que seu medo iria ganhar um adicional logo mais à frente. 

Ainda na fila para o check-in, Lisa conhece Jackson como um homem com um grande senso de justiça, afinal, ele se pronuncia para defender um funcionário do aeroporto da falta de polidez de um passageiro impaciente e estressado, desses que necessita tratar funcionário como um ser inferior. Na primeira tacada, Jackson já faz seu primeiro ponto — afinal, cada uma de suas atitudes é minuciosamente planejada para atrair a atenção positiva de Lisa. Ainda na fila, Jackson convida, de maneira descontraída e com um ar de "o máximo que ela pode fazer é dizer não", a adorável Lisa para se sentar e conversar, verdade seja dita. No final das contas, após o check-in, Lisa avista Jackson a esperando no local sugerido e vai ao seu encontro, onde finalmente se apresentam um ao outro e descobrimos que Jackson não gosta de apelidos; apesar de ter se demonstrado um tanto bobo ao ver Lisa pronunciar seu nome e sobrenome e descobrir, por si própria, o motivo. A conversa não dura muito, já que Jackson, sempre ocupado com o trabalho, precisa atender uma chamada telefônica. Aparentemente, era um adeus; afinal, qual a probabilidade de ambos se encontrarem de novo?

Mínima. 

E para completar o conto de fadas que Lisa estava vivendo naquele aeroporto, é quando entra no avião e procura pelo número de seu assento que descobre que a pessoa que ocupa o assento exatamente ao seu lado é simplesmente Jackson. Ambos ficam desacreditados com tamanha coincidência, Jackson até mesmo confere o número impresso no bilhete de embarque de Lisa apenas para ter certeza de que aquilo estava acontecendo. Coisa do destino, né? Certamente, foram feitos um para o outro e esses encontros e desencontros não podem ser à toa — certamente são os pensamentos que se passam pela mente momentaneamente conturbada de Lisa. Aquela chance não pode ser desperdiçada e tudo se torna se torna ainda mais nítido quando, no momento de decolagem, Jackson faz de tudo para distrair a jovem Reisert, que estava a um passo de entrar em uma crise de ansiedade com o movimento brusco do avião. Um amor de pessoa. Quando o avião se estabiliza, Lisa tem ainda mais certeza de que deve puxar assunto com o passageiro ao seu lado. Aliás, por que não perguntar mais sobre o trabalho de Jackson, que o faz ser uma pessoa tão ocupada? 

"No momento, meu trabalho é inteiramente sobre você". 

Poderia ser um grande flerte, apesar de soar estranho. Mas não é uma cantada: é apenas Jackson revelando friamente o motivo de tantas coincidências românticas; estava apenas fazendo o seu próprio trabalho. E, naquele momento, seu trabalho se concentrava na gerente do hotel onde está hospedado Charles Keefe (juntamente de sua esposa e filha), o secretário da Segurança Interna dos Estados Unidos aka o alvo que Jackson e seus companheiros de trabalho precisam eliminar. O plano se baseia em lançar um míssil em um determinado andar do hotel, mas, para que isso aconteça, é necessário que uma ordem superior do hotel mude Keefe e sua família para este determinado andar — e a única pessoa com autoridade para isso é simplesmente Lisa Reisert, com apenas uma chamada telefônica para sua colega de trabalho, a pouco prestativa e ainda menos independente Cynthia. 

E vamos àquela clássica frase: e se eu me recusar? 

Vamos lá, Jackson Rippner não é um despreparado. Se Lisa se recusar a realizar a chamada telefônica ao hotel e ordenar a mudança de andar direcionada à família Keefe, Jackson garante que o amado pai de Lisa, Joe, que vive sozinho, será assassinado. E para que a jovem não pense que se trata de um blefe, Jackson retira do próprio bolso a carteira do pai da moça, provando a esta que esteve no mesmo dia na casa do velho Joe. 

A clássica história romântica descontraída se torna um pesadelo, e é nisso que Red Eye embala seus próximos minutos de duração. Impecavelmente eletrizante do começo ao fim, afirmo tranquilamente que, okay, Cillian é um ator que consegue interpretar até uma árvore e fazê-la protagonista de maneira impecável, mas, santo deus, Cillian Murphy interpretando o vilão da história é um patrimônio mundial — Dr. Jonathan Crane em Batman Begins que o diga. Jackson Rippner é um dos meus personagens e vilões preferidos do cinema e nada pode mudar minha mente, mas, claro, seria realmente interessante se Red Eye proporcionasse mais detalhes sobre a vida do personagem. 

Um fun fact que, tendo em vista o poço de urânio que é a internet, não é tão fun fact assim, é que há quem seriamente "shippe" Lisa e Jackson. Algo como: e daí que ele é um terrorista e assassino? Eles têm química!

Tal qual a química presente em Chernobyl.

Ontem, assisti The Water (2009), um curta-metragem canadense de aproximadamente 20 minutos que conta com as atuações de Cillian, David Fox e Leslie Feist. Está disponível no youtube com uma péssima  (terrivelmente péssima) qualidade, mas tão ruim mesmo que preciso assistir de novo, porque, santo deus, parece que foi filmado com uma tekpix. De qualquer maneira, tenho em mente que a próxima resenha que publicarei será sobre Disco Pigs, um filme irlandês de 2001 que foi a grande estreia de Cillian como ator. Ou seja... Nos vemos novamente daqui 4 meses? Algo assim. 

Retomando e finalizando: recomendo Red Eye, obviamente. Lembro que assisti quando era criança, provavelmente em um canal aleatório da TV por assinatura ou em algum corujão ou simplesmente filme noturno da TV aberta, e no dia seguinte fui no Yahoo descrevendo uma cena específica (que não mencionarei, pois é um spoiler) e perguntando o nome do filme, pois não tinha assistido tudo. Um herói aleatório me respondeu. Obrigada, carinha do Yahoo!

No mais, agradeço muitíssimo a você que leu até aqui. Hidrate-se e fique bem. Até!

"one single phone call saves your dad's life"



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Red Lights (2012) — (uma quase) maratona Cillian Murphy

Red Lights (2012)
Escrito e dirigido por Rodrigo Cortés


Isto não é uma resenha — nem pense em procurar por estrutura semelhante. É apenas um post provavelmente pequeno e direto em que expressarei minha opinião sobre o filme Red Lights, o primeiro de 2022 da minha “maratona Cillian Murphy”. Maratona esta que sei lá como começou, só lembro de ano passado ter descoberto a existência de “Breakfast on Pluto”, filme em que o Cillian interpreta Kitten, uma personagem trans, e nem assisti ainda, porque fiquei de ler o livro primeiro. Tempo vai, tempo vem, e acabou que comecei a ler primeiro outro livro (The Butcher Boy) do mesmo autor, Patrick McCabe. Como vim parar neste ponto em que a simples participação do Cillian em um filme me faz querer assisti-lo, isso não sei.


O que também acho interessante (na verdade, o primeiro adjetivo em que pensei foi bem abstrato e não consegui encontrar a palavra ideal) é que, antes de assistir Red Lights, eu tinha uma visão completamente distorcida do personagem interpretado pelo Cillian. Isso porque, na minha cabeça, estava a confundir “Red Lights” com um filme chamado “Red Eye”, em que também há um personagem interpretado pelo Cillian. Logo, ao que o filme começava, eu esperava um personagem malvado; os minutos iam passando e eu me perguntava quando a máscara de mocinho ia cair. Não caiu.


Enfim.


Já que só assisti pelo fator “Cillian Murphy”, acho justo começar falando de seu personagem. Sim: isso, definitivamente, não é uma resenha — mais uma vez, não procure por estrutura semelhante ou qualquer traço de profissionalismo.


Cillian interpreta Tom Buckley (ou, também, Dr. Tom Buckley), um físico que se dedica ao estudo de algo que pode ser chamado simplesmente como: desmascarar eventos paranormais. Mais exatamente, desmascarar pessoas que fingem possuir poderes e usam disso como uma ferramenta para ganhar dinheiro e fama, ludibriando pessoas pelo mundo inteiro. Tem uma aura de mocinho, mas está longe de ser um personagem masculino com esse objetivo. Tom é inteligente, perspicaz e dedicado, mas é “simplesmente” o que podemos chamar de braço direito, assistente da Dra. Margaret Matheson, interpretada por Sigourney Weaver.



Logo no começo do filme há uma situação engraçada e que demonstra bem o estereótipo da mulher ser a figura que geralmente presta a “assistência” ou que simplesmente não é capaz de estar no posto mais alto, por assim dizer. Tom e Margaret chegam a uma casa onde irão investigar um evento paranormal, e o anfitrião, um senhor, se dirige ao Tom, cumprimentando-o e chamando-o por “Dr. Matheson”, e automaticamente Tom o corrige, apontando para Margaret e falando ao anfitrião que o “Dr. Matheson” é, na realidade, a “Dra. Matheson” — a mulher pela qual o senhor praticamente passou direto.


Margaret é uma professora universitária de Psicologia, cujas aulas geralmente são ministradas com o auxílio de Tom, seu assistente. Trata-se de uma senhora relativamente séria, extremamente centrada e, obviamente, inteligente. Para mim, está longe de ser uma pessoa fria, mas vagueia pelas nuances que o conceito de taciturno pode trazer. Margaret parece carregar muitas coisas dentro de si, um longo caminho percorrido no decorrer da vida. Apesar de ser uma mulher séria, é nítido o carinho expresso nas entrelinhas de seu comportamento para com Tom, no qual, várias vezes, ela demonstra possuir grande confiança. E o jovem Buckley, por sua vez, ao menos foi o que me pareceu, possui um respeito gigante por Margaret, além de admiração e, sim, um tiquinho de obediência. Não diria “obediência” no sentido clássico de fazer aquilo que lhe foi mandado, mas sim a respeito do fato de que ele tem em mente que Margaret sabe muito bem o que está fazendo e não hesita em seguir seus passos.


E é isso que, juntos, eles fazem: desmascarar charlatões. E o fazem muito bem. Uma dupla que se completa.


Apesar de haver vários falsos videntes e etc por aí e nunca faltar trabalho para a atividade a qual a dupla se dedica, os jornais não falam de outra coisa senão a vinda do famoso vidente cego Simon Silver, interpretado por Robert DeNiro, à cidade. E Tom simplesmente cisma que ele e Margaret precisam desmascarar Silver, cuja fama internacional vem de décadas.



A partir daqui, haverá spoilers. Não pretendo contar o final, mas, sim, haverá spoilers. Amo oferecer spoilers.


E a resposta de Margaret às investidas de Tom é firme: não.


Então, claro, Tom segue insistindo e insistindo. Até chegar ao ponto em que Margaret, visivelmente exausta dessa conversa, explica porque sua resposta é “não”. A Dra. Matheson há anos tem um filho em coma em um hospital; e passou por uma desagradável experiência com o alvo de Tom. Veja bem, o trabalho da Dra. e seu assistente deixam bem claro que ambos são céticos e que veem uma explicação para tudo — e se essa explicação não está visível, eles procuram até atingir seus objetivos. Para eles, não existe sobrenatural, e, sim, pessoas que usam de todas ilusões possíveis para ludibriar os outros que, geralmente, são pessoas fragilizadas e que necessitam acreditar em algo, desde uma cura para uma doença até a vida além da morte.


A questão é: por baixo de toda força imaculável de Margaret, há uma pessoa fragilizada. E Silver provou.


Na ocasião em que Margaret esteve com Silver, no intuito de desmascará-lo, e antes mesmo de conhecer Tom, Silver disse à Margaret que via (importante lembrar que se trata de um vidente cego), ao lado dela, um garoto descrito exatamente como seu filho, e perguntou se alguém próximo a ela havia morrido, e que esse garoto a pedia para deixá-lo ir. E Margaret, repentinamente, não conseguiu responder. Por um segundo, Margaret acreditou que pudesse ser verdade. E esse único segundo foi o bastante para que, desde então, a Dra. Matheson se odiasse por ter fraquejado em seu próprio ceticismo, tendo cogitado, por um segundo, que Silver dizia a verdade. O amargor do arrependimento por sua própria falha momentânea foi maior do que qualquer revolta por Simon ter usado seu filho naquela situação. Margaret continuou seu trabalho, posteriormente conheceu Tom, mas voltar a ver Silver nunca esteve em seus planos.



Margaret pede para que Tom desista da ideia de investigar Silver. Porém, o jovem Buckley não acata a esse pedido. Nessa mesma noite, o rapaz vai a uma apresentação de Silver, em que suas tentativas de desmascarar os eventos paranormais do velho Simon são completamente fracassadas, incluindo curto-circuito com seus equipamentos usados na investigação e tudo mais, uma série de eventos que parecem conspirar contra seus objetivos. Frustrado, o físico decide ir ao escritório de Margaret e acaba passando por outra eventualidade: ao chegar, encontra-a no chão, praticamente sem vida, sozinha. Até consegue levá-la ao hospital, mas já não há nada que se possa fazer. Problemas cardiovasculares, até onde me recordo.


Margaret havia pedido ao seu assistente para não ir atrás de Silver naquela noite. E ele foi, deixando-a só desta vez, no escritório em que ambos estavam quase sempre juntos. Tom sabe que jamais vai se perdoar por isso. E ao mesmo tempo em que, a partir daquela noite, o físico se vê perseguido por eventos sobrenaturais que acredita serem atribuídos a Silver, ele decide que, por Margaret, irá desmascarar o velho Simon e provar que o sobrenatural não existe. Mas, a cada passo dado por Tom, seus planos dão errado, suas tentativas colecionam fracassos e sua vida parece ser cada vez mais atormentada pelos eventos assustadores e inexplicáveis que lhe rodeiam; e que, como já dito, ele acredita serem atribuídos a Silver, que está se vingando por Buckley ter ousado se intrometer em seu caminho.



O final é segredo, só contarei meia-noite.

Já que isso faz parte da Maratona Cillian Murphy, impossível não falar um pouco mais sobre seu personagem. Com a morte da Margaret, também morreu um pouco do Tom para mim; é estranho saber que ele está lá sem ela. Em comparação ao personagem Jackson Rippner que Cillian interpreta em “Red Eye”, Tom Buckley é um personagem bem ameno, com suas pitadas de humor e lealdade, honra e persistência como características notáveis. Gostei imenso do filme, mas não darei nota, pois isso é algo que não sei fazer.


O final me pegou de surpresa e passei uns bons minutos procurando a opinião de outras pessoas em sites como blogs e afins, pois sou assim. Recomendo e assistiria de novo.


E é isto. Espero voltar logo, logo com um post sobre Red Eye.

No mais, agradeço muitíssimo a você que leu até aqui! Hidrate-se e fique bem. Até!



"you can't deny yourself forever"




Exibição vulgar de poder

Três vezes na vida, abri o livro "O Exorcista". A primeira vez foi há mais de 10 anos, quando peguei o livro físico emprestado da ...