Três vezes na vida, abri o livro "O Exorcista". A primeira vez foi há mais de 10 anos, quando peguei o livro físico emprestado da biblioteca da escola num daqueles intervalos prolongados por aulas canceladas, mas não passei da primeira página porque não estava no clima para entender o que diabos uma escavação sob o sol ardente do Iraque tinha a ver com padres, demônios e exorcismos. A memória é nitída: mais um dia iluminado por aquela bola escaldante que chamam vulgarmente de Sol, mas que, em Fortaleza, dava a sensação de estar sempre perto demais. Era meu primeiro ano numa escola estadual, e o acervo ali era mais interessante do que todas minhas recordações na escola privada de antes. Aliás, foi o primeiro lugar onde vi uma cópia física de um mangá de Saint Seiya, um volume bem conservado de "Episode.G", isto é, o mangá mais aleatório que se poderia esperar encontrar. Também, foi o lugar onde li Nietzsche pela primeira vez, por meio de uma cópia mais maltratada de "Assim falou Zaratustra", e lembro de não ter entendido merda nenhuma.
A segunda vez que abri "O Exorcista" foi em 2024, em formato digital, e, dessa vez, passei da primeira página — na verdade, cheguei à última mais rápido do que imaginava. Instantaneamente, tornou-se um dos meus livros favoritos. Ainda na primeira e segunda leitura, a motivação foi a mesma: sempre gostei muito de terror, mas nunca gostei de jumpscare e cenas visuais grotescas com demasiado sangue. Sustos sonoros e gore não me dão medo de verdade, apenas a sensação desagradável do coração acelerado e repulsa; o que, para mim, é bem pior.
"O Exorcista" não é um terror visual, apesar de ser extremamente fácil visualizar o quão horrível é a Regan possuída pelo demônio. O medo no romance de William Peter Blatty é construído gradativamente, capítulo por capítulo, como um arrepio sem pressa subindo pela espinha. Não é algo repentino; na minha opinião, é algo que vai ganhando espaço na sua cabeça de forma a exigir tanto da sua concentração que, lendo em silêncio, um ruído repentino faz você acordar do transe como quem acorda de um pesadelo.
A terceira vez que li o livro foi entre os dias 18 e 21 de abril de 2026. Em uma palavra: deleite. Pensei em falar "infelizmente, curto demais" e me corrigi, pois discordo da ideia de um livro ser "curto demais" ou "grande demais". Um escritor sabe quando e onde parar, e desrespeitar essa natureza é forçar algo que, ao fim, acaba por se tornar uma experiência amarga. Tive a impressão de que “O Exorcista” não tinha mais que 180 páginas (leio em formato digital e oculto o progresso de leitura, não gosto de saber a numeração de onde estou), mas... Dei uma olhada, e as duas versões mais lidas são uma de 350 e outra de 400 páginas.
Eu simplesmente adoro revisitar obras que já conheço. Li (inteiramente) “O Exorcista duas vezes”, e ambas foram completamente diferentes entre si. Na segunda vez, notei coisas que antes passavam despercebidas, interpretei falas e acontecimentos agora de outro ponto de vista, e é fantástico ver aquilo que “não poderia ficar melhor” se superando.
Não acho muito lógico um aviso de spoiler referente a um livro e filme publicados na década de 70, mas... Enfim.
Chris MacNeil é uma atriz famosa e bem-sucedida, prestes a ter sua primeira oportunidade como diretora de um filme. Regan MacNeil, de 12 anos, é a amável e doce filha, fruto de um casamento que já não existe; parcialmente, devido à carreira de Chris e as consequentes limitações impostas por uma vida pública. Ambas vivem com os criados Karl e Willie, um casal de suíços. Coisas estranhas começam a surgir em casa e, posteriormente, no comportamento de Regan. Depois de inúmeras experiências com médicos, exames, medicações, hospitais e todas as tentativas científicas de explicar o estado anormal de Regan, Chris recorre ao conhecido padre que tem a vida dividida entre a igreja e a universidade.
Membro do clero e médico psiquiatra, apesar de não propriamente exercer a segunda ocupação e estar abalado na primeira, Damien é um padre de fé fragilizada, cujo recente falecimento da mãe explica muito seu atual estado emocional. Até mesmo para a força anormal oriunda de uma menina de 12 anos e a telecinese (gavetas abrindo-se e fechando-se bem a frente dos olhos de Damien), Karras encontra uma explicação científica, baseada no aprendizado acumulado através de anos de estudo e profissionalismo. Não é que ele não queira acreditar — é quase como se fosse incapaz de acreditar.
O demônio, desde o princípio, sabe da fraqueza de Karras. É ainda no primeiro encontro entre os dois que surge a famosa frase "vulgar display of power", que se popularizou para além da adaptação cinematográfica por ter nomeado o sexto álbum de uma banda que, hoje em dia, prefiro fingir que nunca existiu.
Regan: I am the devil
Karras: if you are the devil, why won't you make the straps disappear?
Regan: that's too much of a vulgar display of power, Karras
Se Pazuzu fizesse as amarras se soltarem, seria como restaurar a fé de Damien diante de seus olhos. O demônio tem seu orgulho, e, como o padre Merrin chegou a dizer, o objetivo dele é causar desespero e nos incitar a dúvida quanto à nossa própria humanidade. Pazuzu move gavetas e móveis indiscriminadamente, mas não remove as cordas que imobilizam o corpo de Regan à cama. Por que mover os móveis, mas não as cordas?
Pazuzu consegue extrair pensamentos recentes e conhecimento da mente de Karras; quando este começa a fazer perguntas em latim e o demônio responde no mesmo idioma, explicando que só sabe responder àquelas específicas questões porque conseguia repetir em voz alta as respostas que lia no consciente de Karras. Em outro momento, Karras traz consigo um recipiente de água benta preenchido com água da torneira e respinga gotas diretamente sobre o corpo de Regan, e o demônio reage como se estivesse genuinamente sendo ferido por água sagrada. Por que ler os pensamentos de Karras em um contexto, mas, noutro, fingir não saber que o padre estava o testando?
Porque, como médico psiquiatra e padre, Damien era a pessoa perfeita para distinguir se o caso de Regan era um transtorno mental não diagnosticado ou uma possessão. Pazuzu viu o objetivo de Karras e decidiu brincar com o padre, vê-lo desolado, sem saber no que acreditar, perdido entre fatos que sustentam a possibilidade científica e os fatos que sustentam a possibilidade sobrenatural. Damien proporcionou ao demônio tudo que este necessitava: oportunidades para atuar. Karras, como psiquiatra, sentia que era capaz de manter os diálogos de maneira a extrair informações importantes para o caso de Regan, e não percebeu que estava sendo completamente manipulado por Pazuzu.
Momentos antes do início do exorcismo, antes de irem juntos ao quarto onde Regan se encontra, o padre Lankester Merrin dá um adendo importante:
Especially important is the warning to avoid conversations with the demon. We may ask what is relevant but anything beyond that is dangerous. He is a liar. The demon is a liar. He will lie to confuse us. But he will also mix lies with the truth to attack us. The attack is psychological, Damien, and powerful. So don’t listen to him.
Na medicina no contexto do livro, uma das possíveis explicações científicas para o estado de Regan era a multi-personalidade, que, na realidade, é explicada pelo Transtorno Dissociativo de Identidade (TID). Sabendo disso, Pazuzu usa diferentes vozes, idiomas e características, o que é um fator favorável para a hipótese patológica. Após profundas análises, Karras chega à conclusão de que Regan (ou aquilo que, no momento, é Regan) expressa 3 personalidades, o que reforça a explicação científica e descarta uma possessão demoníaca, visto que o demônio deveria ser um único indivíduo.
E ele continua acreditando piamente nisso, até ao ponto de tentar explicar o "background" de toda a situação para o padre Merrin momentos antes do exorcismo, e ser totalmente surpreendido com a simples e firme resposta do mais experiente: "é apenas uma personalidade". Por mais numerosas que fossem as dúvidas ainda existentes no consciente de Karras, a explicação era simples: "He will lie to confuse us. But he will also mix lies with the truth to attack us".
Eu diria que Damien apenas acreditou que Regan estava mesmo possuída por um demônio no último capítulo do livro, já com a presença de Merrin e o exorcismo em execução. Até a chegada de Merrin, Karras seguia com a ideia de que o exorcismo seria um placebo, a única via terapêutica de trazer paz à Regan e, consequentemente, à desolada mãe Chris. O tempo todo, Damien levava em consideração o fato de que grande parte dos exorcismos no passado eram casos de pessoas doentes que desenvolveram a ideia de que, de fato, estavam possuídas pelo demônio, e o exorcismo funcionava como um placebo milagroso.
Enfim. Agora, um pouco sobre o padre Lankester Merrin… Um personagem que não vemos muito; apenas o suficiente. Lankester nos é introduzido apenas em dois momentos: no início, onde Merrin entende que o demônio Pazuzu iria retornar, e no fim do romance, onde Merrin já se encontra a par de seu destino. Nas primeiras páginas, acompanhamos-o no Iraque, e, nas últimas, em Georgetown. E um fato interessante: ele e o demônio já se conhecem de águas passadas. No momento em que Lankester entra na casa dos MacNeil, Pazuzu, do andar de cima, começa a gritar:
MERRRRRIIIIN
E eu confesso, esse momento me fez engolir em seco. Ninguém havia mencionado o exorcismo ou o nome de Merrin ao demônio. A criatura simplesmente sentiu a presença, já por si conhecida, de Lankester, e entendeu o que poderia estar prestes a se desenrolar.
Apesar de tudo, eventualmente, tive as bolas para assistir o filme de 1973. Afinal... Como não? A atuação da Linda Blair e do Jason Miller são irresistíveis, assim como a trilha sonora cativante que marcou "Tubular bells", da autoria de Mike Oldfield, como um clássico do terror. A adaptação cinematográfica é realmente fiel ao livro, mas é óbvio que eu prefiro o segundo. Por N motivos, mas posso rapidamente citar duas diferenças (coincidência ou não, ambas pertencentes ao capítulo final) que, a meu ver, por si só, demonstram a superioridade do livro:
1. No filme, Karras usa da abrupta violência física para fazer o demônio deixar o corpo de Regan e possui-lo. Para mim, isso não faz sentido. Conhecendo o demônio até aqui, acredito que ele teria se deleitado ao ver Damien batendo em Regan, por ser um ato irracional e típico de perder as estribeiras, destacando a vulnerabilidade humana perante ao desespero. Entendo que o diretor tenha escolhido essa alteração por ser algo mais visual e rápido, era necessário terminar o filme nos limites determinados.
No livro, a abrupta violência não é física, mas psicológica: Karras sabe que o demônio é vaidoso e ambicioso, e começa a atacar não com golpes físicos, mas com palavras, e não o corpo de Regan, mas o orgulho de Pazuzu. Um momento demasiadamente curto, mas incrivelmente satisfatório. Damien sabe exatamente onde dói, e, entre depreciações, começa a provocar o demônio, insinuando que este possuía crianças indefesas pois não tinha capacidade de possuir alguém maior, alguém mais resistente, alguém mais forte... Alguém como um padre.
Neste ponto, lembro-me de um dos porquês de Karras ser um dos meus "personagens fictícios preferidos que conto nos dedos".
2. Ao perceber que Pazuzu abandonou o corpo de Regan e começou a possui-lo, Damien se autossacrifica, jogando-se pela janela. No filme, Karras morre com o rosto rente ao chão. No livro, todavia, ele morre de costas para o chão, isto é, olhando para cima. No momento em que o padre Dyer pede a confissão de Damien, é descrita uma expressão de vitória e (por não dizer?) paz no rosto de Karras. O autossacrifício não havia sido à toa: o demônio havia feito exatamente o que Karras queria, e Regan estava livre.
⋆ Menções honrosas
Ao livro: Apesar de ser explícito que o demônio brinca com a linguagem, há um trecho específico cujo significado só percebi quando tive contato com a obra pela segunda vez. A princípio, pensei que ele só queria tirar uma com os coitados que, antes de Karras, tentaram conversar consigo e entender a situação de Regan.
Eu não sei me despedir. Não sei como terminar o que parece ser mas não é uma resenha, pois não tem o profissionalismo característico de uma. Resenha? Ensaio? Opinião?
Uma das frases mais célebres da autoria de George A. Romero diz que, quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a Terra. No caso, quando a minha cabeça começa a transbordar de pensamentos, especialmente aqueles que dão voltas e voltas, as palavras começam a andar sobre o papel — e, geralmente, terminam sobre o teclado.



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