Isto não é uma resenha — nem pense em procurar por estrutura semelhante. É apenas um post provavelmente pequeno e direto em que expressarei minha opinião sobre o filme Red Lights, o primeiro de 2022 da minha “maratona Cillian Murphy”. Maratona esta que sei lá como começou, só lembro de ano passado ter descoberto a existência de “Breakfast on Pluto”, filme em que o Cillian interpreta Kitten, uma personagem trans, e nem assisti ainda, porque fiquei de ler o livro primeiro. Tempo vai, tempo vem, e acabou que comecei a ler primeiro outro livro (The Butcher Boy) do mesmo autor, Patrick McCabe. Como vim parar neste ponto em que a simples participação do Cillian em um filme me faz querer assisti-lo, isso não sei.
O que também acho interessante (na verdade, o primeiro adjetivo em que pensei foi bem abstrato e não consegui encontrar a palavra ideal) é que, antes de assistir Red Lights, eu tinha uma visão completamente distorcida do personagem interpretado pelo Cillian. Isso porque, na minha cabeça, estava a confundir “Red Lights” com um filme chamado “Red Eye”, em que também há um personagem interpretado pelo Cillian. Logo, ao que o filme começava, eu esperava um personagem malvado; os minutos iam passando e eu me perguntava quando a máscara de mocinho ia cair. Não caiu.
Enfim.
Já que só assisti pelo fator “Cillian Murphy”, acho justo começar falando de seu personagem. Sim: isso, definitivamente, não é uma resenha — mais uma vez, não procure por estrutura semelhante ou qualquer traço de profissionalismo.
Cillian interpreta Tom Buckley (ou, também, Dr. Tom Buckley), um físico que se dedica ao estudo de algo que pode ser chamado simplesmente como: desmascarar eventos paranormais. Mais exatamente, desmascarar pessoas que fingem possuir poderes e usam disso como uma ferramenta para ganhar dinheiro e fama, ludibriando pessoas pelo mundo inteiro. Tem uma aura de mocinho, mas está longe de ser um personagem masculino com esse objetivo. Tom é inteligente, perspicaz e dedicado, mas é “simplesmente” o que podemos chamar de braço direito, assistente da Dra. Margaret Matheson, interpretada por Sigourney Weaver.
Logo no começo do filme há uma situação engraçada e que demonstra bem o estereótipo da mulher ser a figura que geralmente presta a “assistência” ou que simplesmente não é capaz de estar no posto mais alto, por assim dizer. Tom e Margaret chegam a uma casa onde irão investigar um evento paranormal, e o anfitrião, um senhor, se dirige ao Tom, cumprimentando-o e chamando-o por “Dr. Matheson”, e automaticamente Tom o corrige, apontando para Margaret e falando ao anfitrião que o “Dr. Matheson” é, na realidade, a “Dra. Matheson” — a mulher pela qual o senhor praticamente passou direto.
Margaret é uma professora universitária de Psicologia, cujas aulas geralmente são ministradas com o auxílio de Tom, seu assistente. Trata-se de uma senhora relativamente séria, extremamente centrada e, obviamente, inteligente. Para mim, está longe de ser uma pessoa fria, mas vagueia pelas nuances que o conceito de taciturno pode trazer. Margaret parece carregar muitas coisas dentro de si, um longo caminho percorrido no decorrer da vida. Apesar de ser uma mulher séria, é nítido o carinho expresso nas entrelinhas de seu comportamento para com Tom, no qual, várias vezes, ela demonstra possuir grande confiança. E o jovem Buckley, por sua vez, ao menos foi o que me pareceu, possui um respeito gigante por Margaret, além de admiração e, sim, um tiquinho de obediência. Não diria “obediência” no sentido clássico de fazer aquilo que lhe foi mandado, mas sim a respeito do fato de que ele tem em mente que Margaret sabe muito bem o que está fazendo e não hesita em seguir seus passos.
E é isso que, juntos, eles fazem: desmascarar charlatões. E o fazem muito bem. Uma dupla que se completa.
Apesar de haver vários falsos videntes e etc por aí e nunca faltar trabalho para a atividade a qual a dupla se dedica, os jornais não falam de outra coisa senão a vinda do famoso vidente cego Simon Silver, interpretado por Robert DeNiro, à cidade. E Tom simplesmente cisma que ele e Margaret precisam desmascarar Silver, cuja fama internacional vem de décadas.
A partir daqui, haverá spoilers. Não pretendo contar o final, mas, sim, haverá spoilers. Amo oferecer spoilers.
E a resposta de Margaret às investidas de Tom é firme: não.
Então, claro, Tom segue insistindo e insistindo. Até chegar ao ponto em que Margaret, visivelmente exausta dessa conversa, explica porque sua resposta é “não”. A Dra. Matheson há anos tem um filho em coma em um hospital; e passou por uma desagradável experiência com o alvo de Tom. Veja bem, o trabalho da Dra. e seu assistente deixam bem claro que ambos são céticos e que veem uma explicação para tudo — e se essa explicação não está visível, eles procuram até atingir seus objetivos. Para eles, não existe sobrenatural, e, sim, pessoas que usam de todas ilusões possíveis para ludibriar os outros que, geralmente, são pessoas fragilizadas e que necessitam acreditar em algo, desde uma cura para uma doença até a vida além da morte.
A questão é: por baixo de toda força imaculável de Margaret, há uma pessoa fragilizada. E Silver provou.
Na ocasião em que Margaret esteve com Silver, no intuito de desmascará-lo, e antes mesmo de conhecer Tom, Silver disse à Margaret que via (importante lembrar que se trata de um vidente cego), ao lado dela, um garoto descrito exatamente como seu filho, e perguntou se alguém próximo a ela havia morrido, e que esse garoto a pedia para deixá-lo ir. E Margaret, repentinamente, não conseguiu responder. Por um segundo, Margaret acreditou que pudesse ser verdade. E esse único segundo foi o bastante para que, desde então, a Dra. Matheson se odiasse por ter fraquejado em seu próprio ceticismo, tendo cogitado, por um segundo, que Silver dizia a verdade. O amargor do arrependimento por sua própria falha momentânea foi maior do que qualquer revolta por Simon ter usado seu filho naquela situação. Margaret continuou seu trabalho, posteriormente conheceu Tom, mas voltar a ver Silver nunca esteve em seus planos.
Margaret pede para que Tom desista da ideia de investigar Silver. Porém, o jovem Buckley não acata a esse pedido. Nessa mesma noite, o rapaz vai a uma apresentação de Silver, em que suas tentativas de desmascarar os eventos paranormais do velho Simon são completamente fracassadas, incluindo curto-circuito com seus equipamentos usados na investigação e tudo mais, uma série de eventos que parecem conspirar contra seus objetivos. Frustrado, o físico decide ir ao escritório de Margaret e acaba passando por outra eventualidade: ao chegar, encontra-a no chão, praticamente sem vida, sozinha. Até consegue levá-la ao hospital, mas já não há nada que se possa fazer. Problemas cardiovasculares, até onde me recordo.
Margaret havia pedido ao seu assistente para não ir atrás de Silver naquela noite. E ele foi, deixando-a só desta vez, no escritório em que ambos estavam quase sempre juntos. Tom sabe que jamais vai se perdoar por isso. E ao mesmo tempo em que, a partir daquela noite, o físico se vê perseguido por eventos sobrenaturais que acredita serem atribuídos a Silver, ele decide que, por Margaret, irá desmascarar o velho Simon e provar que o sobrenatural não existe. Mas, a cada passo dado por Tom, seus planos dão errado, suas tentativas colecionam fracassos e sua vida parece ser cada vez mais atormentada pelos eventos assustadores e inexplicáveis que lhe rodeiam; e que, como já dito, ele acredita serem atribuídos a Silver, que está se vingando por Buckley ter ousado se intrometer em seu caminho.
Já que isso faz parte da Maratona Cillian Murphy, impossível não falar um pouco mais sobre seu personagem. Com a morte da Margaret, também morreu um pouco do Tom para mim; é estranho saber que ele está lá sem ela. Em comparação ao personagem Jackson Rippner que Cillian interpreta em “Red Eye”, Tom Buckley é um personagem bem ameno, com suas pitadas de humor e lealdade, honra e persistência como características notáveis. Gostei imenso do filme, mas não darei nota, pois isso é algo que não sei fazer.
O final me pegou de surpresa e passei uns bons minutos procurando a opinião de outras pessoas em sites como blogs e afins, pois sou assim. Recomendo e assistiria de novo.
E é isto. Espero voltar logo, logo com um post sobre Red Eye.
No mais, agradeço muitíssimo a você que leu até aqui! Hidrate-se e fique bem. Até!